segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tallulah



Algumas mulheres celtas tinham a sorte de poder escolher com quem se casavam, com quem passariam o resto da vida, com quem iriam partilhar a sua cama.
Mas infelizmente... eu não era uma dessas mulheres sortudas.
Sou Tallulah, filha de Ragna, rei de Kerni. E hoje, hoje é o dia do meu casamento com o herdeiro das terras de Jordi.

Deixei que a minha criada me lavasse o cabelo enquanto imagens da minha mãe apareciam na minha mente. Ela faleceu quando eu tinha apenas oito anos, quando era uma simples criança sonhadora, de uma doença rara.
Os meus pais tinham-se casado por amor e de certeza que se a minha mãe ainda fosse viva não aceitaria este casamento de fachada, só para que o meu pai ficasse com os terrenos do lado oeste do seu território.
Lembro-me do dia em que brincava no jardim com a minha mãe e ela me repetia as lições de uma mulher:
Ama o teu homem e segue-o, mas somente se ambos representarem, um para o outro, o que a Deusa mãe ensinou: Amor, companheirismo e amizade.”
Sorri, eu sabia essa lição, mas e o meu pai? Ouviu alguma coisa do que a Deusa Mãe ensinou aos Homens? Parece-me que não. Amar o meu homem? Como podia amar o meu prometido se no fundo o meu coração – o meu corpo e a minha alma – pertenciam a Adam? O jovem rapaz que ajudava o meu pai a organizar as suas estratégias.
Adam era tudo o que uma mulher desejava: meigo, doce, carinhoso e bonito. Mas, o seu trabalho ou poses não eram uma bem valia para as terras do meu pai. Mesmo assim eu sonhava que ele algum dia aceitasse o meu romance com aquele jovem rapaz que arrebatou o meu coração sonhador... mas isso estava tão longe de acontecer.
Levantei-me e a criada enrolou uma toalha ao meu corpo, sai da banheira improvisada e limpei o cabelo a outra toalha que ela me entregava. A voz da minha mãe era suave na minha mente:

“Jamais permitas que algum homem te escravize. Tu, minha pequena flor, nasceste livre para amar e não para ser escrava.”

Estava a tornar-me escrava do meu próprio destino, escrava do meu pai e escrava do meu futuro marido. Como a minha mãe fazia-me falta, ela saberia perfeitamente o que teria de fazer nesta situação para chamar a atenção do meu pai.

“Jamais permitas que o teu coração sofra em nome do amor. Amar é um acto de felicidade, para quê sofrer?”

- Menina, quer vestir o seu vestido já? – Perguntou a criada, a criada que um dia foi a melhor amiga da minha mãe, que um dia lhe escovou o cabelo antes dela sair do quarto rumo ao altar, rumo à sua felicidade. Sadrinne sabia perfeitamente o que estava acontecer comigo, sabia perfeitamente que eu não me queria casar, não com aquele homem. Ela era quem me ajudava a encontrar com Adam, ela e Claire, a sua filha que era como uma irmã para mim, até achava estranho ela ainda não ter vindo até ao meu quarto.

Suspirei e sentei-me na cama, levantando os meus braços para que ela o vestido entrasse. Ela suspirou desgostosa.

- A sua mãe queria que este dia fosse o mais feliz da sua vida.
- Sadrinne, como será isso possível, se não é Adam que está à minha espera no altar?
- Menina Tallulah, isto é tão importante para o seu pai, não faça nenhuma besteira.
- É besteira correr atrás da felicidade? Conhecia a minha mãe.
- A sua mãe não está aqui para desafiar o seu pai. E se for você a fazê-lo as consequências não vão ser as mesmas, vão ser más. Esqueça o menino Adam.
- Como posso esquecer o meu amor?
- Só tem 17 anos, irá esquece-lo e ser muito feliz com a vida que está por aqui.

“Jamais permitas que os teus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca te fará sorrir.
Jamais permites que o uso do teu próprio corpo seja cerceado. Que saibas que o corpo é a morada do espírito, para quê mantê-lo aprisionado?”

- Levante-se por favor. – Pediu a velha criada, fiz-lhe a vontade com os pensamentos bem longes dali. Ela ajeitava o meu vestido branco, feito pelas minhas próprias mãos, utilizando os tecidos do vestido de noiva da minha mãe.
Deu passos pequenos em direcção à minha arca e abriu-a, tirando de lá fitas rosas, uma seria presa debaixo do meu peito e a outra presa nos meus cabelos castanhos.
- Sadrinne, sabe onde está Adam?
Ela levantou a sua cabeça, olhando para mim com carinho e depois abanou a cabeça.
- Não minha querida, não sei nada desde que o seu pai chegou com ele ao seu quarto de costura e lhe disse que tinha encontrado o seu futuro marido.
Suspirei.
- Como me lembro desse momento, por uns momentos estava eufórica pois como Adam estava a acompanhá-lo, pensei que era ele. Mas enganei-me, quando ouvi a noticia e quando vi a cara de Adam. – Segurei-lhe as mãos – Tenho tantas saudades dele, Sadrinne. Será que tinha sido de outra forma se tivesse aberto o meu coração com o meu pai?
Ela abanou a cabeça e passou com a sua mão gentilmente no meu rosto.
- Não minha querida, as terras de oeste são muito importantes para o seu pai em caso de guerra. Adam não tinha nada para lhe oferecer.
Deixei uma lágrima escorrer pelo meu rosto, Sadrinne reparou e limpou-a.
- Oh minha pobre criança. – Disse abraçando-me, deixei-me chora no seu ombro enquanto ela cantarolava uma canção para criança. Oh, como queria que o meu pai tivesse presente naquele dia do jardim e ouvisse todas as lições em relação a mulheres.

Jamais permitas ficar horas esperando por alguém que nunca virá, mesmo tendo prometido.
Jamais permitas que o teu nome seja pronunciado em vão por um homem cujo nome tu nem sequer sabes!”

Bateram à porta e pôs-me direita recompondo-me. Virando as costas para a porta e deixando que Sadrinne prende-se a fita a cima da minha cintura, mandei entrar.
- Oh minha querida amiga... – Disse Claire entrando no quarto e fechando a porta atrás de si, olhei para ela – Oh, estives-te a chorar? Não, Tallulah. Olha tenho isto para si. – Disse tirando um pedaço de papel do seu bolso. Peguei sem entusiasmo algum e abrindo, reconhecendo por fim a sua letra, olhei para ela. – Ele esteve aqui, Tallulah, desiste disto.
- Filha, não lhe ponhas ideias na cabeça. Tallulah tem de fazer isto para o bem da família! – Disse Sadrinne tirando a carta da minha mão.
- Para o bem da família? E para o seu bem mãe? Não conta?Corre querida, corre atrás da felicidade. Fala com o teu pai, abre-lhe o coração.
Sadrinne mordeu o lábio quando olhei para ela com um sorriso encantador.
- Esse brilho nos vossos olhos, é igual ao da sua mãe.
Acenei com a cabeça e aceitei a carta que ela me devolvia. Abraçando Claire peguei no vestido e sai a correr do meu quarto. Bati à porta antes de entrar no escritório do meu pai, que se encontrava lá com um novo homem que o ajudava com as estratégias quando Adam desapareceu. Tinha uma carta dele nas minhas mãos, uma carta de amor eterno, sabia que podia resultar.
Os dois homens olharam para mim.
- Meus senhores. – Disse entrando e fazendo uma vénia.
- Senhorita. – Disse o rapaz que estava com o meu pai.
- Christian, será que podes sair por uns momentos? – Pediu o meu pai. O rapaz acenou com a cabeça e com uma vénia ao seu senhor e outra a mim, saiu do escritório.

Jamais permitas que o teu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para ti.”

- Precisais de alguma coisa, Tallulah?
- Pai... – Sentei-me numa cadeira à sua frente. – Lembra-se da noite em que você e a mãe me contaram a vossa historia de amor? Que se casaram por amor e não por ambição dos pais dela?
- Sim, onde quereis chegar, minha pequena criança?
- Pai, não posso dar o meu corpo, a minha alma e o meu coração ao homem a quem vos me entregas-te. Pois eles já pertencem a um homem. Pai, amo Adam.
- Mas vós estais louca? Tendes um casamento hoje, o vosso próprio casamento. Agora largue essa ideia ridícula e vá para o seu quarto arrumar-se, o seu noivo a espera e eu não estou disposto a baboseira.
As lágrimas caiam-me pela face com aquelas palavras tão duras.

“Jamais permitas ouvir gritos nos teus ouvidos. O Amor é o único que pode falar mais alto.”

- Pai, eu amo-o! – Disse chorando.
- Estais completamente louca, Tallulah. Não me desiludas mais, vais amar o teu futuro marido e ser uma óptima mulher, amante e dona de casa. Darás herdeiros que seram os próximos donos de Jordi e Kerni. Quero que acabes com essa ideia maluca.
- Se a mãe estivesse aqui ela iria-me ouvir, iria perceber, para a mãe o que interessava era o amor, não a ambição como a você.
- Pois, querida, a vossa mãe não está aqui e eu escolhi com quem ireis casar, agora tirai essa cara e põe-vos bela, hoje é o teu dia.
- Odeio-vos tanto. Depois deste casamento deixará de ter uma filha. – Disse saindo do escritório e batendo com a porta. Corri para o meu quarto onde deixei-me cair nos braços de Claire, chorando.
- Eu bem avisei para não fazer isso. – Disse Sadrinne.
- O que ele disse?
- Para esquecer, para me preparar e subir aquele maldito altar. Adam esperará por mim naquela maldita floresta e nunca saberá o porque de não ir ter com ele. – Disse por entre soluços.
- Queres que o procure? – Perguntou-me Claire.
Sequei as lágrimas com a minha mão e levantei-me.
- Sadrinne, acabai de me arranjar. Não Claire, deixai-o estar, antes que o meu pai mande guardas atrás dele. Prefiro que ele viva sem saber do que morra.
Claire acenou com a cabeça e depois de Sadrinne acabar de ajeitar o laço rosa no vestido, sentei-me para que ambas me penteassem os cabelos e o arranjassem.

“Jamais permitas que paixões desenfreadas te levem de um mundo real para outro que nunca existiu.
Jamais permitas que outros sonhos se misturem aos teus, tornando-os um grande pesadelo.”

Sabrinne e Claire acabaram de apanhar o meu cabelo e envolveram com outra fita rosa, Claire juntou algumas flores brancas para dar um ar mais doce.
Olhei-me ao espelho e acenei-lhes com a cabeça, não queria perder mais tempo com aquele casamento de fachada.
Abraçei-as e depois sai do quarto com elas mesmo atrás de mim. No jardim os convidados já se encontravam todos à espera e no pequeno altar improvisado estava John, o meu noivo. Ele tinha mais quinze anos que eu, apesar de parecer muito mais velho do que aparentava.
Vi o meu pai à saída da cozinha e lá peguei no seu braço, sem lhe dirigir nenhuma palavra e muito menos um olhar. Mas sentia o seu olhar preso em mim.

“Jamais acredites que alguém possa voltar quando nunca esteve presente.”

Os músicos começaram a tocar e com o meu pai começei a caminhar em direcção ao altar. Estavam poucas pessoas, pelo menos isso. Conhecia a maioria, o resto devia ser amigos e familiares de John.
Quando chegámos ao altar o meu pai pegou na minha mão e beijou-a, olhando para mim, desviei o meu olhar dele. Depois virando-se para John, entregou-a. Ao qual ele pegou com bastante cuidado sorrindo. Dê-mos uns passos em frente, ficando em frente ao monge que nos iria casar.

“Jamais permitas viver na dependência de um homem como se tivesses nascido invalida.
Jamais permitas que o teu útero gere um filho que nunca terá pai.”

O monge levantou as mãos para o céu.
- Neste sagrado circulo de luz reunimo-nos em perfeito amor e perfeita verdade. Oh, Deusa do Amor Divino, eu te peço que abençoes este casal, o seu amor e o seu casamento pelo tempo em que viverem juntos no amor. Para que cada um desfrute de uma vida saudável, cheia de alegria, amor, estabilidade e fertilidade.
Enquanto o monge falava observava o sol a começar a esconder-se por trás daquelas árvores do bosque que rodeava a nossa casa. Na minha mente, apesar de ainda estar a rebobinar tudo o que a minha mãe me tinha ensinado de mulheres livres... lembrava-me de Adam, será que ele ainda esperava por mim naquelas árvores? Senti uma lágrima correr pelo meu rosto e vi que John reparava nisso, mordendo o seu próprio lábio pelo o facto de não poder dizer nada. Aprecei-me a limpar o rosto e vi que o meu pai notara também e que naquele momento, chorava.

“Jamais te ponhas linda e maravilhosa, a fim de esperar por um homem que não tenha olhos para te admirar.”

O monge pegou num prato com terra no qual ambos estendemos a mão sobre o mesmo, e falou.
- Abençoados sejam pelo antigo e místico elemento terra. Que a Deusa do Amor em toda a sua glória abençoe-os com amor, ternura, felicidade e compaixão pelo tempo que viverem ambos.
Voltou a pôr o prato em cima do altar e envolveu-nos com o incenso enquanto dizia:
- Abençoados sejam pela fumaça e pelo sino, símbolos do antigo e místico elemento ar. Que a Deusa do Amor em toda a sua gloria abençoe-os com a comunicação, crescimento intelectual e sabedoria pelo tempo que viverem ambos.
Enquanto aquele ritual acontecia mais a minha mente se afastava mais daquele lugar, daquele momento.

“Jamais permitas que os teus pés caminhem na direcção de um homem que vive fugindo de ti.”

Seguiram-se mais os elementos fogo e agua.
Mais uma lágrima caia, quando John pegou na aliança e deslizou-a no meu dedo enquanto proclamava as suas promessas. Depois, foi-me dada a sua aliança a qual peguei tremendo. Olhei para as pessoas que ali estavam assistindo, todas alegres por pensarem que era mais um casamento cheio de paixão e de amor.
- Eu, Tallulah, filha de Ragna de Kerni... eu... eu... – Olhei para as pessoas que sabiam que eu desejava; eu dava de tudo, para não estar ali naquele preciso momento, quando o vi, ao pé da ombreira da porta da cozinha. O seu rosto tão belo, manchado pelas suas lágrimas. Ele tinha estado à minha espera ou ele tinha vindo despedir-se?

Jamais permitas que a dor, a tristeza, a solidão, o odio, o ressentimento, o ciume, o remorso e tudo aquilo que possa tirar o brilho dos teus olhos te dominem, fazendo arrefecer a força que existe dentro de ti.”

- Tallulah? – Chamou-me John, sem perceber nada. Eu não o julgava mas como me podia casar com ele se o meu coração, simplesmente, pertencia a outro homem. E que estava ali?
Olhei para ele e depois para Adam de novo, ainda com a aliança a meio do dedo de John, as pessoas comentavam entre si. Sadrinne apertava a mão de sua filha. O meu pai olhava para mim.
- Eu... eu... prometo ser-vos fiel... – Suspirei e deixei cair a aliança no chão. E ali, deixei-me chorar – John, desculpai-me, mas não posso fazer isto, nunca seria uma esposa como deve ser, nunca te faria feliz. O meu coração pertence a outro homem. – Tirei a aliança que ele me tinha posto no dedo e entreguei-a, envolvendo as minhas mãos nas suas – Desculpai-me, espero que um dia sejas muito feliz, tal como eu serei.
- Compreendo. – Disse ele – Espero que sejais muito feliz, Tallulah, rapariga dos sonhos e das canções de todos os homens.
Sorri com aquela pequena descrição. Sabia que na aldeia todos os bardos faziam melodias sobre a minha beleza mas nunca ninguém tinha sido assim tão directo. Fiz-lhe uma vénia e fui até ao meu pai, onde parei.
Ele puxou-me para o seu corpo.
- Desculpai-me, meu pequeno anjo. Sua mãe ficaria brava comigo por eu estar tão cego. Ide atrás da sua felicidade mas não vos esqueceis das suas origens, nem do seu pai. Ide agora.
- Obrigada, meu pai. – Sorri e abraçei-o. – Obrigada Sabrinne, por tudo. Oh minha Claire. – Disse abraçando-as ao mesmo tempo, ambas choravam de felicidade, mesmo com aquela multidão a fazer comentários sobre o que estava a acontecer.
- Não vos esqueceis de mim.
- Nunca minha amiga. – Disse a Claire abraçando-a e por fim, corri para os braços de Adam que me recebeu com um abraço e um beijo apaixonado.

“Simplesmente, minha filha, minha pérola, jamais permitas perderes a dignidade de ser mulher.”

- Vinde comigo. – Pediu.
- Convosco irei até final dos marés. Até às terras desconhecidas. – Disse-lhe e ele sorriu. Olhei para trás e com um pequeno aceno a toda a gente que me conhecia desde pequena, com um pequeno aceno ao meu pai, a Sabrinne e a Claire, parti.
Ele subiu para o seu cavalo ajudando-me de seguida e cavalgámos para longe de Kerni.



©Catarina Dias

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