segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tallulah



Algumas mulheres celtas tinham a sorte de poder escolher com quem se casavam, com quem passariam o resto da vida, com quem iriam partilhar a sua cama.
Mas infelizmente... eu não era uma dessas mulheres sortudas.
Sou Tallulah, filha de Ragna, rei de Kerni. E hoje, hoje é o dia do meu casamento com o herdeiro das terras de Jordi.

Deixei que a minha criada me lavasse o cabelo enquanto imagens da minha mãe apareciam na minha mente. Ela faleceu quando eu tinha apenas oito anos, quando era uma simples criança sonhadora, de uma doença rara.
Os meus pais tinham-se casado por amor e de certeza que se a minha mãe ainda fosse viva não aceitaria este casamento de fachada, só para que o meu pai ficasse com os terrenos do lado oeste do seu território.
Lembro-me do dia em que brincava no jardim com a minha mãe e ela me repetia as lições de uma mulher:
Ama o teu homem e segue-o, mas somente se ambos representarem, um para o outro, o que a Deusa mãe ensinou: Amor, companheirismo e amizade.”
Sorri, eu sabia essa lição, mas e o meu pai? Ouviu alguma coisa do que a Deusa Mãe ensinou aos Homens? Parece-me que não. Amar o meu homem? Como podia amar o meu prometido se no fundo o meu coração – o meu corpo e a minha alma – pertenciam a Adam? O jovem rapaz que ajudava o meu pai a organizar as suas estratégias.
Adam era tudo o que uma mulher desejava: meigo, doce, carinhoso e bonito. Mas, o seu trabalho ou poses não eram uma bem valia para as terras do meu pai. Mesmo assim eu sonhava que ele algum dia aceitasse o meu romance com aquele jovem rapaz que arrebatou o meu coração sonhador... mas isso estava tão longe de acontecer.
Levantei-me e a criada enrolou uma toalha ao meu corpo, sai da banheira improvisada e limpei o cabelo a outra toalha que ela me entregava. A voz da minha mãe era suave na minha mente:

“Jamais permitas que algum homem te escravize. Tu, minha pequena flor, nasceste livre para amar e não para ser escrava.”

Estava a tornar-me escrava do meu próprio destino, escrava do meu pai e escrava do meu futuro marido. Como a minha mãe fazia-me falta, ela saberia perfeitamente o que teria de fazer nesta situação para chamar a atenção do meu pai.

“Jamais permitas que o teu coração sofra em nome do amor. Amar é um acto de felicidade, para quê sofrer?”

- Menina, quer vestir o seu vestido já? – Perguntou a criada, a criada que um dia foi a melhor amiga da minha mãe, que um dia lhe escovou o cabelo antes dela sair do quarto rumo ao altar, rumo à sua felicidade. Sadrinne sabia perfeitamente o que estava acontecer comigo, sabia perfeitamente que eu não me queria casar, não com aquele homem. Ela era quem me ajudava a encontrar com Adam, ela e Claire, a sua filha que era como uma irmã para mim, até achava estranho ela ainda não ter vindo até ao meu quarto.

Suspirei e sentei-me na cama, levantando os meus braços para que ela o vestido entrasse. Ela suspirou desgostosa.

- A sua mãe queria que este dia fosse o mais feliz da sua vida.
- Sadrinne, como será isso possível, se não é Adam que está à minha espera no altar?
- Menina Tallulah, isto é tão importante para o seu pai, não faça nenhuma besteira.
- É besteira correr atrás da felicidade? Conhecia a minha mãe.
- A sua mãe não está aqui para desafiar o seu pai. E se for você a fazê-lo as consequências não vão ser as mesmas, vão ser más. Esqueça o menino Adam.
- Como posso esquecer o meu amor?
- Só tem 17 anos, irá esquece-lo e ser muito feliz com a vida que está por aqui.

“Jamais permitas que os teus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca te fará sorrir.
Jamais permites que o uso do teu próprio corpo seja cerceado. Que saibas que o corpo é a morada do espírito, para quê mantê-lo aprisionado?”

- Levante-se por favor. – Pediu a velha criada, fiz-lhe a vontade com os pensamentos bem longes dali. Ela ajeitava o meu vestido branco, feito pelas minhas próprias mãos, utilizando os tecidos do vestido de noiva da minha mãe.
Deu passos pequenos em direcção à minha arca e abriu-a, tirando de lá fitas rosas, uma seria presa debaixo do meu peito e a outra presa nos meus cabelos castanhos.
- Sadrinne, sabe onde está Adam?
Ela levantou a sua cabeça, olhando para mim com carinho e depois abanou a cabeça.
- Não minha querida, não sei nada desde que o seu pai chegou com ele ao seu quarto de costura e lhe disse que tinha encontrado o seu futuro marido.
Suspirei.
- Como me lembro desse momento, por uns momentos estava eufórica pois como Adam estava a acompanhá-lo, pensei que era ele. Mas enganei-me, quando ouvi a noticia e quando vi a cara de Adam. – Segurei-lhe as mãos – Tenho tantas saudades dele, Sadrinne. Será que tinha sido de outra forma se tivesse aberto o meu coração com o meu pai?
Ela abanou a cabeça e passou com a sua mão gentilmente no meu rosto.
- Não minha querida, as terras de oeste são muito importantes para o seu pai em caso de guerra. Adam não tinha nada para lhe oferecer.
Deixei uma lágrima escorrer pelo meu rosto, Sadrinne reparou e limpou-a.
- Oh minha pobre criança. – Disse abraçando-me, deixei-me chora no seu ombro enquanto ela cantarolava uma canção para criança. Oh, como queria que o meu pai tivesse presente naquele dia do jardim e ouvisse todas as lições em relação a mulheres.

Jamais permitas ficar horas esperando por alguém que nunca virá, mesmo tendo prometido.
Jamais permitas que o teu nome seja pronunciado em vão por um homem cujo nome tu nem sequer sabes!”

Bateram à porta e pôs-me direita recompondo-me. Virando as costas para a porta e deixando que Sadrinne prende-se a fita a cima da minha cintura, mandei entrar.
- Oh minha querida amiga... – Disse Claire entrando no quarto e fechando a porta atrás de si, olhei para ela – Oh, estives-te a chorar? Não, Tallulah. Olha tenho isto para si. – Disse tirando um pedaço de papel do seu bolso. Peguei sem entusiasmo algum e abrindo, reconhecendo por fim a sua letra, olhei para ela. – Ele esteve aqui, Tallulah, desiste disto.
- Filha, não lhe ponhas ideias na cabeça. Tallulah tem de fazer isto para o bem da família! – Disse Sadrinne tirando a carta da minha mão.
- Para o bem da família? E para o seu bem mãe? Não conta?Corre querida, corre atrás da felicidade. Fala com o teu pai, abre-lhe o coração.
Sadrinne mordeu o lábio quando olhei para ela com um sorriso encantador.
- Esse brilho nos vossos olhos, é igual ao da sua mãe.
Acenei com a cabeça e aceitei a carta que ela me devolvia. Abraçando Claire peguei no vestido e sai a correr do meu quarto. Bati à porta antes de entrar no escritório do meu pai, que se encontrava lá com um novo homem que o ajudava com as estratégias quando Adam desapareceu. Tinha uma carta dele nas minhas mãos, uma carta de amor eterno, sabia que podia resultar.
Os dois homens olharam para mim.
- Meus senhores. – Disse entrando e fazendo uma vénia.
- Senhorita. – Disse o rapaz que estava com o meu pai.
- Christian, será que podes sair por uns momentos? – Pediu o meu pai. O rapaz acenou com a cabeça e com uma vénia ao seu senhor e outra a mim, saiu do escritório.

Jamais permitas que o teu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para ti.”

- Precisais de alguma coisa, Tallulah?
- Pai... – Sentei-me numa cadeira à sua frente. – Lembra-se da noite em que você e a mãe me contaram a vossa historia de amor? Que se casaram por amor e não por ambição dos pais dela?
- Sim, onde quereis chegar, minha pequena criança?
- Pai, não posso dar o meu corpo, a minha alma e o meu coração ao homem a quem vos me entregas-te. Pois eles já pertencem a um homem. Pai, amo Adam.
- Mas vós estais louca? Tendes um casamento hoje, o vosso próprio casamento. Agora largue essa ideia ridícula e vá para o seu quarto arrumar-se, o seu noivo a espera e eu não estou disposto a baboseira.
As lágrimas caiam-me pela face com aquelas palavras tão duras.

“Jamais permitas ouvir gritos nos teus ouvidos. O Amor é o único que pode falar mais alto.”

- Pai, eu amo-o! – Disse chorando.
- Estais completamente louca, Tallulah. Não me desiludas mais, vais amar o teu futuro marido e ser uma óptima mulher, amante e dona de casa. Darás herdeiros que seram os próximos donos de Jordi e Kerni. Quero que acabes com essa ideia maluca.
- Se a mãe estivesse aqui ela iria-me ouvir, iria perceber, para a mãe o que interessava era o amor, não a ambição como a você.
- Pois, querida, a vossa mãe não está aqui e eu escolhi com quem ireis casar, agora tirai essa cara e põe-vos bela, hoje é o teu dia.
- Odeio-vos tanto. Depois deste casamento deixará de ter uma filha. – Disse saindo do escritório e batendo com a porta. Corri para o meu quarto onde deixei-me cair nos braços de Claire, chorando.
- Eu bem avisei para não fazer isso. – Disse Sadrinne.
- O que ele disse?
- Para esquecer, para me preparar e subir aquele maldito altar. Adam esperará por mim naquela maldita floresta e nunca saberá o porque de não ir ter com ele. – Disse por entre soluços.
- Queres que o procure? – Perguntou-me Claire.
Sequei as lágrimas com a minha mão e levantei-me.
- Sadrinne, acabai de me arranjar. Não Claire, deixai-o estar, antes que o meu pai mande guardas atrás dele. Prefiro que ele viva sem saber do que morra.
Claire acenou com a cabeça e depois de Sadrinne acabar de ajeitar o laço rosa no vestido, sentei-me para que ambas me penteassem os cabelos e o arranjassem.

“Jamais permitas que paixões desenfreadas te levem de um mundo real para outro que nunca existiu.
Jamais permitas que outros sonhos se misturem aos teus, tornando-os um grande pesadelo.”

Sabrinne e Claire acabaram de apanhar o meu cabelo e envolveram com outra fita rosa, Claire juntou algumas flores brancas para dar um ar mais doce.
Olhei-me ao espelho e acenei-lhes com a cabeça, não queria perder mais tempo com aquele casamento de fachada.
Abraçei-as e depois sai do quarto com elas mesmo atrás de mim. No jardim os convidados já se encontravam todos à espera e no pequeno altar improvisado estava John, o meu noivo. Ele tinha mais quinze anos que eu, apesar de parecer muito mais velho do que aparentava.
Vi o meu pai à saída da cozinha e lá peguei no seu braço, sem lhe dirigir nenhuma palavra e muito menos um olhar. Mas sentia o seu olhar preso em mim.

“Jamais acredites que alguém possa voltar quando nunca esteve presente.”

Os músicos começaram a tocar e com o meu pai começei a caminhar em direcção ao altar. Estavam poucas pessoas, pelo menos isso. Conhecia a maioria, o resto devia ser amigos e familiares de John.
Quando chegámos ao altar o meu pai pegou na minha mão e beijou-a, olhando para mim, desviei o meu olhar dele. Depois virando-se para John, entregou-a. Ao qual ele pegou com bastante cuidado sorrindo. Dê-mos uns passos em frente, ficando em frente ao monge que nos iria casar.

“Jamais permitas viver na dependência de um homem como se tivesses nascido invalida.
Jamais permitas que o teu útero gere um filho que nunca terá pai.”

O monge levantou as mãos para o céu.
- Neste sagrado circulo de luz reunimo-nos em perfeito amor e perfeita verdade. Oh, Deusa do Amor Divino, eu te peço que abençoes este casal, o seu amor e o seu casamento pelo tempo em que viverem juntos no amor. Para que cada um desfrute de uma vida saudável, cheia de alegria, amor, estabilidade e fertilidade.
Enquanto o monge falava observava o sol a começar a esconder-se por trás daquelas árvores do bosque que rodeava a nossa casa. Na minha mente, apesar de ainda estar a rebobinar tudo o que a minha mãe me tinha ensinado de mulheres livres... lembrava-me de Adam, será que ele ainda esperava por mim naquelas árvores? Senti uma lágrima correr pelo meu rosto e vi que John reparava nisso, mordendo o seu próprio lábio pelo o facto de não poder dizer nada. Aprecei-me a limpar o rosto e vi que o meu pai notara também e que naquele momento, chorava.

“Jamais te ponhas linda e maravilhosa, a fim de esperar por um homem que não tenha olhos para te admirar.”

O monge pegou num prato com terra no qual ambos estendemos a mão sobre o mesmo, e falou.
- Abençoados sejam pelo antigo e místico elemento terra. Que a Deusa do Amor em toda a sua glória abençoe-os com amor, ternura, felicidade e compaixão pelo tempo que viverem ambos.
Voltou a pôr o prato em cima do altar e envolveu-nos com o incenso enquanto dizia:
- Abençoados sejam pela fumaça e pelo sino, símbolos do antigo e místico elemento ar. Que a Deusa do Amor em toda a sua gloria abençoe-os com a comunicação, crescimento intelectual e sabedoria pelo tempo que viverem ambos.
Enquanto aquele ritual acontecia mais a minha mente se afastava mais daquele lugar, daquele momento.

“Jamais permitas que os teus pés caminhem na direcção de um homem que vive fugindo de ti.”

Seguiram-se mais os elementos fogo e agua.
Mais uma lágrima caia, quando John pegou na aliança e deslizou-a no meu dedo enquanto proclamava as suas promessas. Depois, foi-me dada a sua aliança a qual peguei tremendo. Olhei para as pessoas que ali estavam assistindo, todas alegres por pensarem que era mais um casamento cheio de paixão e de amor.
- Eu, Tallulah, filha de Ragna de Kerni... eu... eu... – Olhei para as pessoas que sabiam que eu desejava; eu dava de tudo, para não estar ali naquele preciso momento, quando o vi, ao pé da ombreira da porta da cozinha. O seu rosto tão belo, manchado pelas suas lágrimas. Ele tinha estado à minha espera ou ele tinha vindo despedir-se?

Jamais permitas que a dor, a tristeza, a solidão, o odio, o ressentimento, o ciume, o remorso e tudo aquilo que possa tirar o brilho dos teus olhos te dominem, fazendo arrefecer a força que existe dentro de ti.”

- Tallulah? – Chamou-me John, sem perceber nada. Eu não o julgava mas como me podia casar com ele se o meu coração, simplesmente, pertencia a outro homem. E que estava ali?
Olhei para ele e depois para Adam de novo, ainda com a aliança a meio do dedo de John, as pessoas comentavam entre si. Sadrinne apertava a mão de sua filha. O meu pai olhava para mim.
- Eu... eu... prometo ser-vos fiel... – Suspirei e deixei cair a aliança no chão. E ali, deixei-me chorar – John, desculpai-me, mas não posso fazer isto, nunca seria uma esposa como deve ser, nunca te faria feliz. O meu coração pertence a outro homem. – Tirei a aliança que ele me tinha posto no dedo e entreguei-a, envolvendo as minhas mãos nas suas – Desculpai-me, espero que um dia sejas muito feliz, tal como eu serei.
- Compreendo. – Disse ele – Espero que sejais muito feliz, Tallulah, rapariga dos sonhos e das canções de todos os homens.
Sorri com aquela pequena descrição. Sabia que na aldeia todos os bardos faziam melodias sobre a minha beleza mas nunca ninguém tinha sido assim tão directo. Fiz-lhe uma vénia e fui até ao meu pai, onde parei.
Ele puxou-me para o seu corpo.
- Desculpai-me, meu pequeno anjo. Sua mãe ficaria brava comigo por eu estar tão cego. Ide atrás da sua felicidade mas não vos esqueceis das suas origens, nem do seu pai. Ide agora.
- Obrigada, meu pai. – Sorri e abraçei-o. – Obrigada Sabrinne, por tudo. Oh minha Claire. – Disse abraçando-as ao mesmo tempo, ambas choravam de felicidade, mesmo com aquela multidão a fazer comentários sobre o que estava a acontecer.
- Não vos esqueceis de mim.
- Nunca minha amiga. – Disse a Claire abraçando-a e por fim, corri para os braços de Adam que me recebeu com um abraço e um beijo apaixonado.

“Simplesmente, minha filha, minha pérola, jamais permitas perderes a dignidade de ser mulher.”

- Vinde comigo. – Pediu.
- Convosco irei até final dos marés. Até às terras desconhecidas. – Disse-lhe e ele sorriu. Olhei para trás e com um pequeno aceno a toda a gente que me conhecia desde pequena, com um pequeno aceno ao meu pai, a Sabrinne e a Claire, parti.
Ele subiu para o seu cavalo ajudando-me de seguida e cavalgámos para longe de Kerni.



©Catarina Dias

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Por mundos e ventos...




Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes. 
Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos apago os meus pensamentos, ponho o meu vestido nocturno que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando.





©Catarina Dias

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Brevemente...

Em tempos de conquistas, poder, sedução e dinheiro, as mulheres eram tratadas como mercadoria numa praça. 
Os seus pais escolhiam o seu futuro marido com base nos dotes, terras e fortuna.

Uma mulher tinha de saber ouvir e calar.
O mundo e a vida delas eram dos homens, elas simplesmente tinham de tomar conta da casa e dar um herdeiro, não interessava o que sentiam ou o que pensavam.
Lita tinha apenas catorze anos quando o seu pai a levou para a corte, para ser uma das damas de companhia da rainha, mas essa não era a sua principal função. A jovem teria de chamar a atenção do rei e tornar-se a amante oficial, a todo o custo.
Ao principio, Lita tenta negar sendo torturada pelo seu próprio pai e tio. E então, com a ameaça de morte, começa a tentar chamar a atenção do rei e a seduzi-lo. Até que um dia confunde o rei com Artur, o bardo da corte e primo do próprio rei.

Será a pequena rapariga capaz de continuar em frente com a missão que a sua família lhe propôs, depois de ouvir as melodias cheias de amor do jovem bardo?


"Love in Marseville" de Catarina Dias, brevemente aqui n' Search Neverland

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sharan

Apreciava o meu reflexo etéreo nas aguas do rio quieto. 
Thor, o tigre branco bebe, estava deitado ao meu lado, adormecido.

Os meus ouvidos captavam todos os sons que a floresta me oferecia.
O som da cascata. As melodias dos passaros. As canções das sereias. As risadas das Sidhes.
Era prisioneira e não sabia. Não via os muros altos por detrás das plantas de muitas cores e variedades. Era prisioneira da minha propria casa, das terras do meu pai, do meu proprio paraiso.
Não me movi. Fiquei ali, olhando para as aguas que, também, não iam a lado nenhum, estagnadas.
Vi o céu a mudar de cores por detrás das minhas orelhas alongadas, mas não me movi. Até que, vi um movimento na minha visão periferica, algo se moveu e depois parou. Olhei e um humano estava ali parado. Observando-me com um enorme encanto.

-Sharan! - Olhei para trás, vendo a minha pequena irmã, Jaenelle, correndo na minha direcção. Olhei de novo para onde tinha visto o humano, mas já não estava ali, olhei em meu redor mas não vi ninguem. - Sharan, Jupiter está a chamar-te. - Disse pegando na minha mão e puxando-me. 
Levantei-me e chamei o pequeno Thor que correu atrás de nós em direcção ao castelo. A imagem daquele humano não me saia da cabeça. O seu rosto moreno, os seus olhos profundos azuis e o seu cabelo bastante preto, como as penas de um corvo. A sujidade da sua roupa, demonstrava que percorria aquela floresta já há bastante tempo. Mas como é que ele tinha passado as fronteiras invisiveis do nosso mundo?

Ajoelhei-me perante Jupiter, apesar de meu pai era o nosso lider. Ele levantou-se do seu trono e pegou na minha mão levantando-me, com um beijo na minha testa, ele sorriu.
- Minha Sharan, minha querida Sharan. Ainda não estás preparada para o jantar?
- Estava na floresta. - Olhei pela janela.
- Sempre na floresta Sharan, o que há lá de tão emocionante?
- O sentimento de liberdade, pai! - Os seus guardas mexeram-se nervosos - Estou farta de estar aqui aprisionada... quero ver mundos para além deste.
Ele gargalhou.
- Que filha mais sonhadora que eu tenho. - Acariciou a minha bochecha com o seu dedo longo. - Não podes sair deste reino, és a minha filha. Muitos que já sairam nunca mais voltaram. Vejo que nos teus olhos se passa alguma coisa, vejo as imagens, uma sombra? Que sombra é essa?
- Não sei, não vi direito, talvez uma sidhe. Elas estão sempre por lá a brincar, a cantar e a rir. - Senti a emoção na minha voz. Pai, peço-te, por um dia. Quando as mulheres forem buscar as ervas.
- Chega, Sharan! Já disse que não sairás deste reino! Ouviram?! - Virou-se para os seus guardas - Olhos nela! 
- Sim, senhor! - Disseram em conjunto fazendo uma vênia.
- Não jantarei hoje, não estou com fome. Com licença, meu pai! - Disse arrogantemente, fazendo-lhe uma vénia e saindo da sua sala. Thor seguiu-me mais uma vez. Jaenelle chamou-me mas o meu pai pegou nela ao colo, impedindo a minha pequena irmã de me seguir.

(...)
A lua estava completamente cheia no cimo do céu, Thor estava deitado na minha cama e eu sentada sobre o parapeito da minha janela, olhando para as arvores da floresta. Que sombra seria aquela, que humano era aquele e o que tinha acontecido para ele ter entrado no meu mundo? Oh, quem és tu, meu amado desconhecido. 
Suspirei e olhei para a lua.

Eu não sei se vais ouvir-me
Se estás ai ou não
Eu não sei se compreendes
Esta oração

A porta abriu-se e calei-me.
- Estavas a cantar, Sha? - Perguntou a pequena Jaenelle
- Devias estar na cama, minha pequena. - Disse, saindo da janela e pegando a pequena elfa ensonada.
- Posso dormir contigo hoje? - Disse esfregando o seu olho.
Mordi o lábio.
- Claro. - Disse, deitando-a na minha cama e deitando-me ao seu lado. O seu pequeno corpo enrroscou-se ao meu e passado pouco tempo a pequena criança já estava a dormir. 
Levantei-me com todo o cuidado e vesti um dos meus vestidos. 
- Thor, fica com ela. - Disse ao tigre que me observava - Cuida bem de Jaenelle. - Disse com as lagrimas escorrendo nos meus olhos - Até um dia. - Não sabia se voltaria a ver o meu pequeno companheiro ou mesmo a minha pequena irmã. Sai do quarto antes que me arrepende-se. 
Passar pelos guardas do meu pai, era bastante facil, já que eu sabia os seus movimentos nocturnos de cor, e num instantinho corria pelo caminho de pedra que dava para a floresta.

- Vêm Sharan... - Ouvi uma pequena voz tentadora. Uma sidhe. - Ele está no bosque, é com ele que queres ir ter não é? O desconhecido que poderá levar-te a outros mundos, ele também anda à tua procura.
Parei. 
- À minha procura?! Porquê?!
A Sidhe pareceu junto à minha cara, na sua forma tão pequena e com uma luz amarela e brilhante à sua volta.
- Ora Sharan, vêm... eu mostro o teu caminho. 
Eram deliciosas aquelas palavras mas também amaldiçoadas, conhecia as sidhes, sabia que brincavam com a vida de todos os humanos, mas porque estava ela a mudar a minha. Encolhi os ombros e corri atrás da pequena fada que voava a toda a sua velocidade.
Se eu p'ra ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao ver-te que eu pergunto
Se já foste como eu

Ela parou. 
- Shiu... ele está ali. - Apontou para um caminho pequeno de terra e desapareceu, deixando-me sozinha no escuro da noite, sentia o coração a bater violentamente.
Caminhei lentamente para não fazer qualquer tipo de barulho e espreitei para além das arvores, a sidhe não tinha mentido, lá estava ele. Deitado sobre a relva e a noite fria, estava encolhido de certeza por causa do ar frio.
 
Longe do mundo, mas perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Perdida, esquecida eu oro aqui
Longe do mundo mas perto de ti

Desapertei a minha capa do pescoço e em bicos de pés aproximei-me daquele humano, pondo-lhe a capa pesada sobre o corpo. Senti os seus musculos a relaxarem com o quente.
Reuni alguns ramos e com a minha mão, fiz aparecer fogo, acendendo uma lareira. E observei o seu rosto. Era tão belo, o que estaria ele ali a fazer, a fada tinha dito que ele vinha à minha procura mas com isso era possivel?

(...)

Quando acordei dei um enorme salto, correndo para trás das arvores.
- Espera! - Disse ele levantando-se e esticando o seu braço. - Eu não te farei mal! Desculpa se te assustei, não me devia ter posto a observar-te a dormir.
Parei, o meu coração batia velozmente, não sabia se havia de fugir ou mesmo de voltar para trás. Fiquei no mesmo sitio, observando-o aproximar-se aos poucos e com cuidado.
- Quem és? O que és? - Perguntou.
- Chamo-me Sharan, a princesa do bosque. Sou filha de Jupiter, Rei de Elven. O que estás aqui a fazer, como vieste cá parar?
- Um sonho.
- Sonho?
- Queres comer qualquer coisa? - Abanei a cabeça e ele pegou numa maçã, sentando-se ao lado da fogueira, já apagada. Olhou para mim. - Senta-te, não te vou fazer mal.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. Ficou uns momentos a observar-me.
- Sharan, não é? - Acenei com a cabeça, sem desviar o olhar do seu rosto. - Sonhei com este local... orei imenso às sidhes para me trazerem até aqui e parece que consegui. No outro dia, ao ver-te ao pé do lago, nem quis acreditar que eras tu, mas não queria ser visto e quando ouvi a chamarem-te escondi-me. Amaldiçoei-me logo no momento a seguir pelo facto de pensar que aquela poderia ter sido a minha unica oportunidade de ter ver, mas ainda bem que estava enganado.
Sentia um formigueiro na barriga e não sabia que tipo de sensação seria aquela.
- Esperei por ti tanto tempo, Dothen! Sabia que um dia chegarias. - Disse, reconhecendo-o finalmente. Sorri e deixei-me cair nos seus braços, que me envolveram.
- Como sabes que...

Peço conforto e nada mais
Na voz dos que sofrem padecem sinais
Vêm de longe e chegam por fim
Quem vai ouvi-los? Quem sofre assim?

Eu não sei se vais lembrar-te
De um coração tão só
Coração tão vagabundo
Que perde, chora, todos os dias
 
- És tu quem eu procurava, reconheço quando cantas essa canção. - Disse-me com um sorriso iluminando todo o seu rosto. Eu cantava aquela musica ao meu salvador, a um rapaz corajoso que procurava aventuras para a sua vida, a canção era um pedido de ajuda, um pedido de salvação.
- Vieste por fim. Pedia atraves da musica que viesses e me libertasses. Cá estás tu!
Ele sorriu, o melhor sorriso que eu alguma vez tinha visto.
Ajudei a levantá-lo e com a ajuda da pequena Sidhe, encontrámos a passagem para o mundo dele, para o mundo dos humanos. Vi coisas que nem imaginava que existissem. Ele ajudou-me em tudo e apesar de nunca puder voltar mais para o meu mundo... via a minha pequena irmã a tornar-se uma adolescente linda e uma mulher espectacular. Vi a evolução de Thor tambem, nas pequenas aguas da fonte que tinha na minha casa com Dothen.

Mantinha contacto com a minha irmãzinha pelos sonhos, com uma só musica.
E assim, iríamos guardar a lembrança, uma da outra. Para sempre.

Longe do mundo mas perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Venho de longe e chego por fim
Quem vai ouvir-me chamar assim
Perdida, esquecida, aqui a orar
Longe do mundo mas perto de ti.


©Catarina Dias



Notas:
A musica é Longe do Mundo da Sara Tavares do filme Corcunda de Notre Dame, da Disney.




segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Bonnie & Eny

Voava pela floresta apanhando as bagas de amoras. Fazendo a minha tarefa rapidamente, estava louca para ir para a minha casa de madeira e folhas verdes em cima de uma das maiores árvores da floresta para ler os meus pequenos livros. 

Livros encantados. Aliás, histórias encantadas.
Adorava o povo humano que nós, sidhes, muitas vezes mudávamos as suas historias, púnhamos os verdadeiros cavaleiros em desafios de coragem, os senhores de terras em verdadeiros desafios de liderança e até os jovens amantes, em desafios de amor, coragem e luta. Era assim que passávamos o tempo, brincando com as situações, pondo tudo e todos à prova todos os dias das suas vidas, mundando-lhes os caminhos sempre que davam um passo em frente. Eles eram fortes, eram os lideres e defensores das nossas florestas, precisávamos dos mais audazes, mais fortes e mais românticos à nossa volta, para que os outros seres não chegassem ao nosso mundo e nos mandassem embora.

Os humanos chamam-nos o povo do outro mundo, o povo das fadas ou simplesmente o povo da paz. Eles confiam em nós e fazem de tudo para nos agradar sempre que os pomos à prova. São fantásticos e eu, tenho um carinho especial por eles e pelas suas belas historias magicas e encantadas. Historias com bruxas más, dragões, cavaleiros, príncipes e princesas, onde eles não eram postos à prova por nós, sidhes, mas sim pelo bem e pelo mal.
Mas o melhor é que o bem triunfava sempre no final, por mais que a historia fosse triste. O amor venceria sempre.

Perguntava a mim mesma se entre o meu povo existiria amor. O sentimento  mais forte que comanda o povo da terra, por quem eles lutam, choram, morrem. O sentimento mais puro. Talvez existisse, mas nunca tinha visto. Apesar, de muitos humanos morrerem na floresta à procura da sua amada, depois de uma sidhe os encantar e fazer as suas juras de amor eterno.

Vagueiam, vagueiam, pelas florestas verdejantes, pelas noites frias e dias de calor, atrás delas, atrás das suas belas melodias, vagueiam anos e anos à sua procura até que o encantamento acaba e eles voltam à sua terra, onde descobrem que já passaram mil anos, onde se apercebem que todos aqueles que eles conheciam, família e amigos, já partiram, que já morreram. Ficam desolados e acabam por morrer na solidão.
O nosso povo pode ser, por vezes, muito terrível e vigarista por vezes.

As minhas orelhas agitaram-se quando ouvi a voz de um dos nossos lideres, para pegarmos nas nossas cestas e voltarmos para o nosso reino, a aurora começava.
Ergui um dedo e por magia as cestas elevaram-se no ar, flutuando atrás do meu corpo. Voei em direcção ao grupo.
- Sabes que eles não deixam usar magia... se algum te vê. – Diz Eny, era extremamente belo e a melhor companhia que alguma vez poderia ter. Algo nele fazia com que tremesse sempre que estava ao seu lado ou mesmo extremesse-se sempre que ele olhava para mim ou me falava.
- Não te preocupes, a passagem é já ali. É já ali o local onde deixaremos as cestas. Quero ir para casa e ler mais um livro.
- Bonnie, foste de novo a casa deles? – Perguntou assustado.
- Calma, eu tenho sempre cuidado.
- Isso é perigoso, sabes perfeitamente o que pode acontecer se algum te apanhar. – Extremeceu.
Peguei na mão, sentindo um arrepio na pele e olhei nos seus olhos doces e preocupados.
Sabia perfeitamente o que poderia acontecer. A minha própria mãe, foi apanhada por um dos humanos. Foi posta numa jaula na praça publica, fizeram dela tudo o que queriam. Arrancaram as suas asas para medicamentos, a sua magia para os seus desejos, a sua beleza para rejuvenescerem. Tiraram todo o calor do seu olhar, toda a sua felicidade e beleza. Fizeram com que ela morresse de tristeza.
- Eu tomo sempre cuidado. - Disse-lhe calmamente.
Puxou-me para junto do seu peito, envolvendo-me com os seus braços musculados.
Beijando-me o cimo da cabeça, olhou-me com os seus olhos cinzentos.
- Bonnie, Bonnie. Não sei o que seria de mim se te acontecesse algo. Por mais insignificante que fosse.
Olhei-o mas antes que pudesse perguntar o que aquilo significava, chegámos ao portal e passámos. Entrando no nosso circulo de casas. Pousei as cestas com cuidado no chão, junto à Árvore Mãe. Quando olhei para o meu lado, Eny já tinha desaparecido.
O que ele queria dizer com aquelas pequenas palavras? Que significado teriam, neste nosso mundo? Lá fora sabia perfeitamente o que era, já tinha lido nos livros deles. Mas e aqui?

Entrei em casa e Cu Sith saltou para cima de mim, dando as boas vindas e pedindo um pouco de atenção antes que metesse o meu nariz nos livros.
Taran ladrou e ganiu de felicidade à minha frente enquanto caminhava em direcção à sala, acendi a lareira e sentei-me na pequena poltrona vermelha à sua frente.
Ele continuou a ladrar e abanava a cauda, puxando a bainha do meu vestido, para me levantar e segui-lo. Fiz o que ele queria até que parou por baixo da pequena janela da cozinha. Em cima do parapeito vi um grande embrulho feito de folhas secas de árvores. Abri a janela, deixando que o vento frio entrasse naquela divisão da casa, Taran ganiu e correu para a sala, provavelmente para a pequena lareira. Peguei no embrulho e fechei a janela, girei-o nas minhas mãos, era pesado. Tirei com cuidado as folhas e descobri um enorme livro.
Abri. As suas páginas amarelas mostravam que já devia ser um pouco antigo, com algumas letras já gastas.
Era um livro de historias. A letra estava desenhada perfeitamente. Quem o fez, devia ser fabuloso e conhecido pelos seus trabalhos. Teria sido também posto à prova pelo meu mundo?
Caminhei lentamente para a sala, sentando-me na poltrona ainda a observar o livro. Taran enroscou-se aos meus pés e deixou-se dormir mesmo assim.
Abriu-o pela primeira vez. Uma pétala caiu no meu colo. Em letras pequeninas estava escrito “Leanan sídhe”, quem teria enviado aquilo?

Comecei a ler. A historia falava de uma pequena rapariga com seis irmãos, o seu pai era senhor de terra mas tinha casado com uma feiticeira. Esta, pronta a livrar-se dos seus enteados, transformou os sete rapazes em cisnes, deixando a rapariga com a missão de fazer seis camisas com uma planta cheia de espinhos. Não poderia falar com ninguém senão os seus irmãos ficariam cisnes para sempre.
Fiquei completamente rendida àquela historia. À prova que o nosso mundo lhe pôs nas mãos. Desejava com tudo em mim que ela conseguisse chegar ao final da sua tarefa. Que conseguisse salvar a sua vida e a dos seus irmãos. Que conseguisse salvar o seu pai e o seu território das mãos daquela feiticeira, embora fosse do meu mundo, que fosse igual a mim.
Nunca desejaria mal a um humano, nunca.
Mesmo que os ponha a prova todos os dias das suas vidas, nunca iria fazer mal a pobres crianças.
Depois de muito sofrimento, depois mesmo de ser violada e sem puder gritar para se salvar, ela continuou em frente, o seu coração batia para salvar os seus pequenos irmãos. E apesar disto tudo, ela encontrou o amor. Ele ajudou-a, mesmo que ela não falasse, embora ela não explicasse o porquê de fazer seis camisolas com aquela erva que lhe estragou as mãos de mulher, que as deixou cheias de cales e cicatrizes dos seus espinhos. Era uma verdadeira heroína e ainda mais vencedora por ter encontrado um prémio tão valioso como o amor.

Depois de duas luas, ela conseguiu finalizar o seu trabalho. Quando os cisnes vieram da migração, ela encontrou os seis. Sentia que eram os seus irmãos, então vestiu as pequenas camisolas, e por magia, um a um iam-se transformando em humanos. Imaginei uma transformação espectacular, onde um cisne se transforma em humano, uma transformação cheia de magia.
A historia acabou e dei por mim  a secar uma pequena lágrima que caia na minha face.

(...)

Eny batia fortemente na porta da minha casa, quando a abri ele olhava aterrorizado para mim.
- O que se passa? – Perguntei começando a ficar assustada. Taran andava de volta das pernas dele.
- Temos de sair daqui , Bonnie. Eles descobriram.
- Descobriram o quê?
- Não te posso contar, não posso contar aqui. Eles estão a vir, temos pouco tempo.
- Deixa-me arranjar algumas coisas.
- Não, vamos! Trás apenas Taran.
Olhei para o pequeno cachorro que estava sentado e que nos observava e depois olhei de novo para o rosto de Eny. Para o seu olhar cheio de preocupação e medo. Peguei na minha capa e metia-a às costas, puxando o seu capuz para a minha cabeça, tapando os meus cabelos vermelhos.
- Vamos. – Disse Eny pegando na minha mão, sentia-a completamente gelada e tremia. Saímos de casa e Taran correu atrás de nós.
Corremos até ao portão que separava o nosso mundo com o mundo dos humanos e ele parou, pegando nas minhas mãos.
- Temos de fugir Bonnie, não consegui esconder mais. Eles descobriram, vêem atrás de nós. Eles não aceitam qualquer tipo de sentimento para além da ambição no nosso mundo. Bonnie, eu quero uma historia tal e qual a deles, chegar a casa e ter-te lá. Dizer todos os dias o quanto te quero e quanto sou feliz só por apenas estares lá. Vens?
- Eny se formos nunca mais voltaremos. Nunca mais seremos parte deste mundo. Seremos mortais e todos os dias estaremos à prova.
- Mas juntos, vamos ultrapassar tudo juntos. Vens?
Olhei para ele, era aquilo que eu queria e só de saber que era correspondido, deixava-me cheia de êxtase. Assenti com a cabeça e peguei-lhe na mão, passando o portal com Eny e com Taran ao nosso lado. 

As nossas asas desapareceram, as nossas orelhas pontiagudas arredondaram como as dos humanos. Já não conseguíamos fazer magia, nem falar no dialecto do outro mundo. Mas acima de tudo estávamos juntos, como os amantes de todas as historias que eu tinha lido.

(...)

Construímos a nossa cabana dia após dia.
Numa semana tínhamos acabado, ficámos na mesma na floresta, não estaríamos habituados a estar em contacto com as pessoas por muito tempo, apesar de trabalharmos na casa dos lideres daquelas terras. Chegávamos sempre à noite à nossa pequena cabana onde éramos sempre recebidos pela alegria de Taran, e depois de jantar, entregavamo-nos sempre ao nosso amor. Com carinho e prazer.
Somos postos todos os dias e talvez mais do que qualquer um humano desta terra , à prova pelo nosso antigo povo. E sei, que apesar de tudo, eles não fazem isto porque fugimos, mas sim para que demos o valor certo, ao que sentimos um pelo outro e para que nunca nos esquecemos, quem éramos nós.

E agora posso dizer que vivo um conto de fadas como sempre quis viver.
Não existem palavras para descrever o que sinto e como me sinto ao lado de Eny.
Sou a mulher mais feliz deste mundo, só por o ter ao meu lado e por saber que ele também também é feliz por me ter do seu lado.
Adoro cada gargalhada, cada brincadeira, cada abraço, cada conversa, cada toque, cada beijo. Encontrei nele mais que um homem, um amigo em que posso confiar todos os segundos da minha vida.
Agradeço por me fazer rir quando me apetece chorar, por me abraçar e dizer que está ao meu lado quando tudo à minha volta caí. Pelo que demonstra só com um simples olhar e por exprimir tudo o que sente só com um beijo.
Por cada ciume, um sentimento novo que descobrimos neste mundo, que me faz ter a certeza que ele me ama e que me quer só para ele. E sei, que tudo isto, vai acabar como nos contos de fadas que se lê, com um final feliz.

©Catarina Dias


Notas (significado):
Sidhe- Povo das fadas, nome literário dado aos Tuatha de Danann
Leanan sídhe - Fada amante
Cu Sith - Cão encantado

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Já fui criança, já acreditei em contos de fadas, já sonhei com um príncipe encantado e com uma bruxa má. Já vivi muito, até já fui a bruxa má na historia de alguém. Sou a rainha dos meus próprios domínios, abro as portas dos mistérios e dos sonhos. Danço com as fadas, viajo com unicórnios por florestas verdejantes e cascatas luxuriantes. Canto e danço por puro prazer com os Tuatha de Danann. Sou o bater da asa de um cisne no sopro do vento. Sou o segredo do coração de uma pedra, sou o ilhado mar selvagem, sou o fogo na cabeça do profeta. Sou uma pessoa que vive entre a realidade e a fantasia. Por baixo do solstício de verão abraçada a Áine já chorei por alguém e já alguém chorou por mim. Já amei e já perdi. Já fui o mundo de alguém.

Lutando com Badb e as suas duas irmãs, lutei pelo que era meu. Lutei e feri-me, mas no fim tudo foi compensado, tudo veio parar às minhas mãos.
Por isso peço-te, oh Brighid, filha de Dagda... vem, daremos as mãos a Cailleach, olharemos para o céu e pronunciaremos “que Imbolc permita mantermo-nos fieis ao nosso caminho, às nossas responsabilidades, e ao amor em cada um de nós. Independentemente das circunstancias de cada um, por vezes, dolorosas da nossa vida”, sorriremos e brincaremos até ao novo dia chegar.



©Catarina Dias