segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Bonnie & Eny

Voava pela floresta apanhando as bagas de amoras. Fazendo a minha tarefa rapidamente, estava louca para ir para a minha casa de madeira e folhas verdes em cima de uma das maiores árvores da floresta para ler os meus pequenos livros. 

Livros encantados. Aliás, histórias encantadas.
Adorava o povo humano que nós, sidhes, muitas vezes mudávamos as suas historias, púnhamos os verdadeiros cavaleiros em desafios de coragem, os senhores de terras em verdadeiros desafios de liderança e até os jovens amantes, em desafios de amor, coragem e luta. Era assim que passávamos o tempo, brincando com as situações, pondo tudo e todos à prova todos os dias das suas vidas, mundando-lhes os caminhos sempre que davam um passo em frente. Eles eram fortes, eram os lideres e defensores das nossas florestas, precisávamos dos mais audazes, mais fortes e mais românticos à nossa volta, para que os outros seres não chegassem ao nosso mundo e nos mandassem embora.

Os humanos chamam-nos o povo do outro mundo, o povo das fadas ou simplesmente o povo da paz. Eles confiam em nós e fazem de tudo para nos agradar sempre que os pomos à prova. São fantásticos e eu, tenho um carinho especial por eles e pelas suas belas historias magicas e encantadas. Historias com bruxas más, dragões, cavaleiros, príncipes e princesas, onde eles não eram postos à prova por nós, sidhes, mas sim pelo bem e pelo mal.
Mas o melhor é que o bem triunfava sempre no final, por mais que a historia fosse triste. O amor venceria sempre.

Perguntava a mim mesma se entre o meu povo existiria amor. O sentimento  mais forte que comanda o povo da terra, por quem eles lutam, choram, morrem. O sentimento mais puro. Talvez existisse, mas nunca tinha visto. Apesar, de muitos humanos morrerem na floresta à procura da sua amada, depois de uma sidhe os encantar e fazer as suas juras de amor eterno.

Vagueiam, vagueiam, pelas florestas verdejantes, pelas noites frias e dias de calor, atrás delas, atrás das suas belas melodias, vagueiam anos e anos à sua procura até que o encantamento acaba e eles voltam à sua terra, onde descobrem que já passaram mil anos, onde se apercebem que todos aqueles que eles conheciam, família e amigos, já partiram, que já morreram. Ficam desolados e acabam por morrer na solidão.
O nosso povo pode ser, por vezes, muito terrível e vigarista por vezes.

As minhas orelhas agitaram-se quando ouvi a voz de um dos nossos lideres, para pegarmos nas nossas cestas e voltarmos para o nosso reino, a aurora começava.
Ergui um dedo e por magia as cestas elevaram-se no ar, flutuando atrás do meu corpo. Voei em direcção ao grupo.
- Sabes que eles não deixam usar magia... se algum te vê. – Diz Eny, era extremamente belo e a melhor companhia que alguma vez poderia ter. Algo nele fazia com que tremesse sempre que estava ao seu lado ou mesmo extremesse-se sempre que ele olhava para mim ou me falava.
- Não te preocupes, a passagem é já ali. É já ali o local onde deixaremos as cestas. Quero ir para casa e ler mais um livro.
- Bonnie, foste de novo a casa deles? – Perguntou assustado.
- Calma, eu tenho sempre cuidado.
- Isso é perigoso, sabes perfeitamente o que pode acontecer se algum te apanhar. – Extremeceu.
Peguei na mão, sentindo um arrepio na pele e olhei nos seus olhos doces e preocupados.
Sabia perfeitamente o que poderia acontecer. A minha própria mãe, foi apanhada por um dos humanos. Foi posta numa jaula na praça publica, fizeram dela tudo o que queriam. Arrancaram as suas asas para medicamentos, a sua magia para os seus desejos, a sua beleza para rejuvenescerem. Tiraram todo o calor do seu olhar, toda a sua felicidade e beleza. Fizeram com que ela morresse de tristeza.
- Eu tomo sempre cuidado. - Disse-lhe calmamente.
Puxou-me para junto do seu peito, envolvendo-me com os seus braços musculados.
Beijando-me o cimo da cabeça, olhou-me com os seus olhos cinzentos.
- Bonnie, Bonnie. Não sei o que seria de mim se te acontecesse algo. Por mais insignificante que fosse.
Olhei-o mas antes que pudesse perguntar o que aquilo significava, chegámos ao portal e passámos. Entrando no nosso circulo de casas. Pousei as cestas com cuidado no chão, junto à Árvore Mãe. Quando olhei para o meu lado, Eny já tinha desaparecido.
O que ele queria dizer com aquelas pequenas palavras? Que significado teriam, neste nosso mundo? Lá fora sabia perfeitamente o que era, já tinha lido nos livros deles. Mas e aqui?

Entrei em casa e Cu Sith saltou para cima de mim, dando as boas vindas e pedindo um pouco de atenção antes que metesse o meu nariz nos livros.
Taran ladrou e ganiu de felicidade à minha frente enquanto caminhava em direcção à sala, acendi a lareira e sentei-me na pequena poltrona vermelha à sua frente.
Ele continuou a ladrar e abanava a cauda, puxando a bainha do meu vestido, para me levantar e segui-lo. Fiz o que ele queria até que parou por baixo da pequena janela da cozinha. Em cima do parapeito vi um grande embrulho feito de folhas secas de árvores. Abri a janela, deixando que o vento frio entrasse naquela divisão da casa, Taran ganiu e correu para a sala, provavelmente para a pequena lareira. Peguei no embrulho e fechei a janela, girei-o nas minhas mãos, era pesado. Tirei com cuidado as folhas e descobri um enorme livro.
Abri. As suas páginas amarelas mostravam que já devia ser um pouco antigo, com algumas letras já gastas.
Era um livro de historias. A letra estava desenhada perfeitamente. Quem o fez, devia ser fabuloso e conhecido pelos seus trabalhos. Teria sido também posto à prova pelo meu mundo?
Caminhei lentamente para a sala, sentando-me na poltrona ainda a observar o livro. Taran enroscou-se aos meus pés e deixou-se dormir mesmo assim.
Abriu-o pela primeira vez. Uma pétala caiu no meu colo. Em letras pequeninas estava escrito “Leanan sídhe”, quem teria enviado aquilo?

Comecei a ler. A historia falava de uma pequena rapariga com seis irmãos, o seu pai era senhor de terra mas tinha casado com uma feiticeira. Esta, pronta a livrar-se dos seus enteados, transformou os sete rapazes em cisnes, deixando a rapariga com a missão de fazer seis camisas com uma planta cheia de espinhos. Não poderia falar com ninguém senão os seus irmãos ficariam cisnes para sempre.
Fiquei completamente rendida àquela historia. À prova que o nosso mundo lhe pôs nas mãos. Desejava com tudo em mim que ela conseguisse chegar ao final da sua tarefa. Que conseguisse salvar a sua vida e a dos seus irmãos. Que conseguisse salvar o seu pai e o seu território das mãos daquela feiticeira, embora fosse do meu mundo, que fosse igual a mim.
Nunca desejaria mal a um humano, nunca.
Mesmo que os ponha a prova todos os dias das suas vidas, nunca iria fazer mal a pobres crianças.
Depois de muito sofrimento, depois mesmo de ser violada e sem puder gritar para se salvar, ela continuou em frente, o seu coração batia para salvar os seus pequenos irmãos. E apesar disto tudo, ela encontrou o amor. Ele ajudou-a, mesmo que ela não falasse, embora ela não explicasse o porquê de fazer seis camisolas com aquela erva que lhe estragou as mãos de mulher, que as deixou cheias de cales e cicatrizes dos seus espinhos. Era uma verdadeira heroína e ainda mais vencedora por ter encontrado um prémio tão valioso como o amor.

Depois de duas luas, ela conseguiu finalizar o seu trabalho. Quando os cisnes vieram da migração, ela encontrou os seis. Sentia que eram os seus irmãos, então vestiu as pequenas camisolas, e por magia, um a um iam-se transformando em humanos. Imaginei uma transformação espectacular, onde um cisne se transforma em humano, uma transformação cheia de magia.
A historia acabou e dei por mim  a secar uma pequena lágrima que caia na minha face.

(...)

Eny batia fortemente na porta da minha casa, quando a abri ele olhava aterrorizado para mim.
- O que se passa? – Perguntei começando a ficar assustada. Taran andava de volta das pernas dele.
- Temos de sair daqui , Bonnie. Eles descobriram.
- Descobriram o quê?
- Não te posso contar, não posso contar aqui. Eles estão a vir, temos pouco tempo.
- Deixa-me arranjar algumas coisas.
- Não, vamos! Trás apenas Taran.
Olhei para o pequeno cachorro que estava sentado e que nos observava e depois olhei de novo para o rosto de Eny. Para o seu olhar cheio de preocupação e medo. Peguei na minha capa e metia-a às costas, puxando o seu capuz para a minha cabeça, tapando os meus cabelos vermelhos.
- Vamos. – Disse Eny pegando na minha mão, sentia-a completamente gelada e tremia. Saímos de casa e Taran correu atrás de nós.
Corremos até ao portão que separava o nosso mundo com o mundo dos humanos e ele parou, pegando nas minhas mãos.
- Temos de fugir Bonnie, não consegui esconder mais. Eles descobriram, vêem atrás de nós. Eles não aceitam qualquer tipo de sentimento para além da ambição no nosso mundo. Bonnie, eu quero uma historia tal e qual a deles, chegar a casa e ter-te lá. Dizer todos os dias o quanto te quero e quanto sou feliz só por apenas estares lá. Vens?
- Eny se formos nunca mais voltaremos. Nunca mais seremos parte deste mundo. Seremos mortais e todos os dias estaremos à prova.
- Mas juntos, vamos ultrapassar tudo juntos. Vens?
Olhei para ele, era aquilo que eu queria e só de saber que era correspondido, deixava-me cheia de êxtase. Assenti com a cabeça e peguei-lhe na mão, passando o portal com Eny e com Taran ao nosso lado. 

As nossas asas desapareceram, as nossas orelhas pontiagudas arredondaram como as dos humanos. Já não conseguíamos fazer magia, nem falar no dialecto do outro mundo. Mas acima de tudo estávamos juntos, como os amantes de todas as historias que eu tinha lido.

(...)

Construímos a nossa cabana dia após dia.
Numa semana tínhamos acabado, ficámos na mesma na floresta, não estaríamos habituados a estar em contacto com as pessoas por muito tempo, apesar de trabalharmos na casa dos lideres daquelas terras. Chegávamos sempre à noite à nossa pequena cabana onde éramos sempre recebidos pela alegria de Taran, e depois de jantar, entregavamo-nos sempre ao nosso amor. Com carinho e prazer.
Somos postos todos os dias e talvez mais do que qualquer um humano desta terra , à prova pelo nosso antigo povo. E sei, que apesar de tudo, eles não fazem isto porque fugimos, mas sim para que demos o valor certo, ao que sentimos um pelo outro e para que nunca nos esquecemos, quem éramos nós.

E agora posso dizer que vivo um conto de fadas como sempre quis viver.
Não existem palavras para descrever o que sinto e como me sinto ao lado de Eny.
Sou a mulher mais feliz deste mundo, só por o ter ao meu lado e por saber que ele também também é feliz por me ter do seu lado.
Adoro cada gargalhada, cada brincadeira, cada abraço, cada conversa, cada toque, cada beijo. Encontrei nele mais que um homem, um amigo em que posso confiar todos os segundos da minha vida.
Agradeço por me fazer rir quando me apetece chorar, por me abraçar e dizer que está ao meu lado quando tudo à minha volta caí. Pelo que demonstra só com um simples olhar e por exprimir tudo o que sente só com um beijo.
Por cada ciume, um sentimento novo que descobrimos neste mundo, que me faz ter a certeza que ele me ama e que me quer só para ele. E sei, que tudo isto, vai acabar como nos contos de fadas que se lê, com um final feliz.

©Catarina Dias


Notas (significado):
Sidhe- Povo das fadas, nome literário dado aos Tuatha de Danann
Leanan sídhe - Fada amante
Cu Sith - Cão encantado

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