quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sharan

Apreciava o meu reflexo etéreo nas aguas do rio quieto. 
Thor, o tigre branco bebe, estava deitado ao meu lado, adormecido.

Os meus ouvidos captavam todos os sons que a floresta me oferecia.
O som da cascata. As melodias dos passaros. As canções das sereias. As risadas das Sidhes.
Era prisioneira e não sabia. Não via os muros altos por detrás das plantas de muitas cores e variedades. Era prisioneira da minha propria casa, das terras do meu pai, do meu proprio paraiso.
Não me movi. Fiquei ali, olhando para as aguas que, também, não iam a lado nenhum, estagnadas.
Vi o céu a mudar de cores por detrás das minhas orelhas alongadas, mas não me movi. Até que, vi um movimento na minha visão periferica, algo se moveu e depois parou. Olhei e um humano estava ali parado. Observando-me com um enorme encanto.

-Sharan! - Olhei para trás, vendo a minha pequena irmã, Jaenelle, correndo na minha direcção. Olhei de novo para onde tinha visto o humano, mas já não estava ali, olhei em meu redor mas não vi ninguem. - Sharan, Jupiter está a chamar-te. - Disse pegando na minha mão e puxando-me. 
Levantei-me e chamei o pequeno Thor que correu atrás de nós em direcção ao castelo. A imagem daquele humano não me saia da cabeça. O seu rosto moreno, os seus olhos profundos azuis e o seu cabelo bastante preto, como as penas de um corvo. A sujidade da sua roupa, demonstrava que percorria aquela floresta já há bastante tempo. Mas como é que ele tinha passado as fronteiras invisiveis do nosso mundo?

Ajoelhei-me perante Jupiter, apesar de meu pai era o nosso lider. Ele levantou-se do seu trono e pegou na minha mão levantando-me, com um beijo na minha testa, ele sorriu.
- Minha Sharan, minha querida Sharan. Ainda não estás preparada para o jantar?
- Estava na floresta. - Olhei pela janela.
- Sempre na floresta Sharan, o que há lá de tão emocionante?
- O sentimento de liberdade, pai! - Os seus guardas mexeram-se nervosos - Estou farta de estar aqui aprisionada... quero ver mundos para além deste.
Ele gargalhou.
- Que filha mais sonhadora que eu tenho. - Acariciou a minha bochecha com o seu dedo longo. - Não podes sair deste reino, és a minha filha. Muitos que já sairam nunca mais voltaram. Vejo que nos teus olhos se passa alguma coisa, vejo as imagens, uma sombra? Que sombra é essa?
- Não sei, não vi direito, talvez uma sidhe. Elas estão sempre por lá a brincar, a cantar e a rir. - Senti a emoção na minha voz. Pai, peço-te, por um dia. Quando as mulheres forem buscar as ervas.
- Chega, Sharan! Já disse que não sairás deste reino! Ouviram?! - Virou-se para os seus guardas - Olhos nela! 
- Sim, senhor! - Disseram em conjunto fazendo uma vênia.
- Não jantarei hoje, não estou com fome. Com licença, meu pai! - Disse arrogantemente, fazendo-lhe uma vénia e saindo da sua sala. Thor seguiu-me mais uma vez. Jaenelle chamou-me mas o meu pai pegou nela ao colo, impedindo a minha pequena irmã de me seguir.

(...)
A lua estava completamente cheia no cimo do céu, Thor estava deitado na minha cama e eu sentada sobre o parapeito da minha janela, olhando para as arvores da floresta. Que sombra seria aquela, que humano era aquele e o que tinha acontecido para ele ter entrado no meu mundo? Oh, quem és tu, meu amado desconhecido. 
Suspirei e olhei para a lua.

Eu não sei se vais ouvir-me
Se estás ai ou não
Eu não sei se compreendes
Esta oração

A porta abriu-se e calei-me.
- Estavas a cantar, Sha? - Perguntou a pequena Jaenelle
- Devias estar na cama, minha pequena. - Disse, saindo da janela e pegando a pequena elfa ensonada.
- Posso dormir contigo hoje? - Disse esfregando o seu olho.
Mordi o lábio.
- Claro. - Disse, deitando-a na minha cama e deitando-me ao seu lado. O seu pequeno corpo enrroscou-se ao meu e passado pouco tempo a pequena criança já estava a dormir. 
Levantei-me com todo o cuidado e vesti um dos meus vestidos. 
- Thor, fica com ela. - Disse ao tigre que me observava - Cuida bem de Jaenelle. - Disse com as lagrimas escorrendo nos meus olhos - Até um dia. - Não sabia se voltaria a ver o meu pequeno companheiro ou mesmo a minha pequena irmã. Sai do quarto antes que me arrepende-se. 
Passar pelos guardas do meu pai, era bastante facil, já que eu sabia os seus movimentos nocturnos de cor, e num instantinho corria pelo caminho de pedra que dava para a floresta.

- Vêm Sharan... - Ouvi uma pequena voz tentadora. Uma sidhe. - Ele está no bosque, é com ele que queres ir ter não é? O desconhecido que poderá levar-te a outros mundos, ele também anda à tua procura.
Parei. 
- À minha procura?! Porquê?!
A Sidhe pareceu junto à minha cara, na sua forma tão pequena e com uma luz amarela e brilhante à sua volta.
- Ora Sharan, vêm... eu mostro o teu caminho. 
Eram deliciosas aquelas palavras mas também amaldiçoadas, conhecia as sidhes, sabia que brincavam com a vida de todos os humanos, mas porque estava ela a mudar a minha. Encolhi os ombros e corri atrás da pequena fada que voava a toda a sua velocidade.
Se eu p'ra ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao ver-te que eu pergunto
Se já foste como eu

Ela parou. 
- Shiu... ele está ali. - Apontou para um caminho pequeno de terra e desapareceu, deixando-me sozinha no escuro da noite, sentia o coração a bater violentamente.
Caminhei lentamente para não fazer qualquer tipo de barulho e espreitei para além das arvores, a sidhe não tinha mentido, lá estava ele. Deitado sobre a relva e a noite fria, estava encolhido de certeza por causa do ar frio.
 
Longe do mundo, mas perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Perdida, esquecida eu oro aqui
Longe do mundo mas perto de ti

Desapertei a minha capa do pescoço e em bicos de pés aproximei-me daquele humano, pondo-lhe a capa pesada sobre o corpo. Senti os seus musculos a relaxarem com o quente.
Reuni alguns ramos e com a minha mão, fiz aparecer fogo, acendendo uma lareira. E observei o seu rosto. Era tão belo, o que estaria ele ali a fazer, a fada tinha dito que ele vinha à minha procura mas com isso era possivel?

(...)

Quando acordei dei um enorme salto, correndo para trás das arvores.
- Espera! - Disse ele levantando-se e esticando o seu braço. - Eu não te farei mal! Desculpa se te assustei, não me devia ter posto a observar-te a dormir.
Parei, o meu coração batia velozmente, não sabia se havia de fugir ou mesmo de voltar para trás. Fiquei no mesmo sitio, observando-o aproximar-se aos poucos e com cuidado.
- Quem és? O que és? - Perguntou.
- Chamo-me Sharan, a princesa do bosque. Sou filha de Jupiter, Rei de Elven. O que estás aqui a fazer, como vieste cá parar?
- Um sonho.
- Sonho?
- Queres comer qualquer coisa? - Abanei a cabeça e ele pegou numa maçã, sentando-se ao lado da fogueira, já apagada. Olhou para mim. - Senta-te, não te vou fazer mal.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. Ficou uns momentos a observar-me.
- Sharan, não é? - Acenei com a cabeça, sem desviar o olhar do seu rosto. - Sonhei com este local... orei imenso às sidhes para me trazerem até aqui e parece que consegui. No outro dia, ao ver-te ao pé do lago, nem quis acreditar que eras tu, mas não queria ser visto e quando ouvi a chamarem-te escondi-me. Amaldiçoei-me logo no momento a seguir pelo facto de pensar que aquela poderia ter sido a minha unica oportunidade de ter ver, mas ainda bem que estava enganado.
Sentia um formigueiro na barriga e não sabia que tipo de sensação seria aquela.
- Esperei por ti tanto tempo, Dothen! Sabia que um dia chegarias. - Disse, reconhecendo-o finalmente. Sorri e deixei-me cair nos seus braços, que me envolveram.
- Como sabes que...

Peço conforto e nada mais
Na voz dos que sofrem padecem sinais
Vêm de longe e chegam por fim
Quem vai ouvi-los? Quem sofre assim?

Eu não sei se vais lembrar-te
De um coração tão só
Coração tão vagabundo
Que perde, chora, todos os dias
 
- És tu quem eu procurava, reconheço quando cantas essa canção. - Disse-me com um sorriso iluminando todo o seu rosto. Eu cantava aquela musica ao meu salvador, a um rapaz corajoso que procurava aventuras para a sua vida, a canção era um pedido de ajuda, um pedido de salvação.
- Vieste por fim. Pedia atraves da musica que viesses e me libertasses. Cá estás tu!
Ele sorriu, o melhor sorriso que eu alguma vez tinha visto.
Ajudei a levantá-lo e com a ajuda da pequena Sidhe, encontrámos a passagem para o mundo dele, para o mundo dos humanos. Vi coisas que nem imaginava que existissem. Ele ajudou-me em tudo e apesar de nunca puder voltar mais para o meu mundo... via a minha pequena irmã a tornar-se uma adolescente linda e uma mulher espectacular. Vi a evolução de Thor tambem, nas pequenas aguas da fonte que tinha na minha casa com Dothen.

Mantinha contacto com a minha irmãzinha pelos sonhos, com uma só musica.
E assim, iríamos guardar a lembrança, uma da outra. Para sempre.

Longe do mundo mas perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Venho de longe e chego por fim
Quem vai ouvir-me chamar assim
Perdida, esquecida, aqui a orar
Longe do mundo mas perto de ti.


©Catarina Dias



Notas:
A musica é Longe do Mundo da Sara Tavares do filme Corcunda de Notre Dame, da Disney.




1 comentário:

  1. é feito através de codigo html e do youtube!
    só que eu não te consigo mandar por aqui.. =S

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